MR Madeira Regency Madeira Real e Imperial · um registo independente

O livro de visitas

Os grandes hotéis, e quem por eles passou

As casas sobre as falésias do Funchal, onde estadistas, escritores e realeza no exílio vinham repousar

Muito antes de ser famosa pelos seus visitantes, a Madeira era famosa pelo seu ar. O mesmo clima ameno e constante que atraía os convalescentes — a história contada em a cura — atraiu, com o tempo, quem podia dar-se ao luxo de adoecer com conforto. Os grandes hotéis nasceram para os receber, e os seus livros de visitas tornaram-se, quase por acaso, um registo da época: uma única ilha tranquila onde estadistas, escritores e realeza no exílio, mais cedo ou mais tarde, todos pousavam as suas malas.

Reid's Palace

O mais grandioso de todos abriu em novembro de 1891. O seu fundador, William Reid, era um emigrante escocês que tinha chegado com quase nada e que fez fortuna à maneira da ilha — alugando quintas aos aristocratas convalescentes que invernavam no Funchal. Do arrendamento de casas à construção da casa: o Reid's Palace ergueu-se nas falésias sobre o mar, e tornou-se o grande hotel da ilha para os abastados e os titulados.

Ao longo do século XX o seu livro de visitas percorreu toda uma época — de estadistas e escritores à realeza no exílio. Hoje o edifício prossegue como Belmond Reid's Palace, aqui referido apenas como ponto de referência do mundo real; este registo não tem quartos nem aceita reservas. O que se segue são alguns dos nomes que a casa reuniu.

O imperador ao lado

Quando o exilado Imperador Carlos I chegou pela primeira vez ao Funchal em 1921, não ficou no Reid's. Alojou-se antes na Villa Vittoria, a casa que se erguia mesmo ao seu lado — de modo que, durante alguns meses estranhos, um imperador moribundo e um hotel de luxo partilharam um muro de jardim. É o tipo de proximidade em que a ilha se especializa: o célebre e o esquecido, o trono e a vila alugada, separados por uma sebe.

Churchill ao seu cavalete

Winston Churchill chegou à Madeira a 1 de janeiro de 1950, a bordo do paquete Durban Castle, com a sua esposa Clementine — a visita destinada em parte a assinalar a reabertura do Reid's após a guerra. Uma semana depois, a 8 de janeiro de 1950, montou o seu cavalete à entrada da aldeia piscatória de Câmara de Lobos e pintou a baía a óleo. O miradouro onde trabalhou chama-se hoje Miradouro Winston Churchill.

Não terminou as suas férias. Convocadas eleições gerais na Grã-Bretanha, a estada foi interrompida e Churchill regressou por mar para fazer campanha — deixando a baía, e o cavalete, para outro ano.

Uma única ilha, um único livro de visitas, e um século inteiro a virar as suas páginas. O registo

Shaw aprende a dançar o tango

Um quarto de século antes, o dramaturgo George Bernard Shaw tinha desembarcado na Madeira a 30 de dezembro de 1924 e ficou até fevereiro de 1925. Tinha sessenta e oito anos. Entre o ar do mar e a pista de dança, recebeu lições de tango do professor de dança do Reid's — e, em gratidão, deixou ao homem uma fotografia autografada. A dedicatória, que sobreviveu, diz assim: “ao único homem que alguma vez me ensinou algo” (“to the only man who ever taught me anything”).

A pipa intacta de Napoleão

O mais famoso hóspede da ilha nunca chegou a desembarcar. No final do verão de 1815 o HMS Northumberland, que levava o derrotado Napoleão para o exílio em Santa Helena, ancorou ao largo do Funchal a 23–25 de agosto. O único madeirense autorizado a subir a bordo foi Henry Veitch, o cônsul britânico escocês e comerciante de vinho, que enviou fruta e uma pipa de Madeira — um grande casco de cerca de seiscentas garrafas. Enjoado e indiferente, Napoleão nunca a abriu.

Segundo a tradição da ilha, diz-se que o imperador pagou o vinho em moedas de ouro, que se diz que Veitch enterrou sob a pedra angular da igreja anglicana do Funchal. Essa parte é lenda, mais repetida do que provada. A pipa, porém, está documentada: após a morte de Napoleão o vinho regressou à Madeira e acabou por ser engarrafado, tornando-se fabulosamente raro — e Churchill, garante o registo, terá bebido uma garrafa dele no Reid's em 1950, fechando um círculo de século e meio de largura.

Que tal vinho devesse ter viajado até Santa Helena e de volta é coisa apropriada. A Madeira era o vinho de eleição da Grã-Bretanha georgiana e da Regência e das colónias americanas, transportado através do Atlântico por velhas casas britânicas como a Blandy's, fundada em 1811. A garrafa no camarote do imperador era, à sua maneira, a coisa mais comum a bordo.

Fontes & notas

Compilado a partir de registos públicos dos hotéis da ilha e dos seus hóspedes. Onde um pormenor assenta na tradição da ilha e não na documentação — sobretudo o ouro enterrado de Napoleão — fica assinalado como tal acima. As datas e os pormenores seguem o registo publicado.