No outono de 1860, uma jovem que já era uma das figuras mais admiradas e mais fotografadas da Europa foi, na prática, mandada sair do seu próprio palácio — não por uma corte, mas por um médico. Isabel da Áustria, esposa do Imperador Francisco José I e conhecida da história simplesmente como Sissi, tossia. O seu especialista de pulmões em Viena, o Dr. Joseph Škoda, temia o pior diagnóstico da época — Lungenschwindsucht, a tísica, a tuberculose — e prescreveu o único remédio então tido por capaz de lhe responder: um inverno bem a sul, numa ilha quente do Atlântico. Nomeou a Madeira.
E assim a Imperatriz deixou Viena em 1860 e voltou o rosto para o oceano. A viagem até ao Funchal foi longa e dura, e não a fez sozinha: viajou com o apoio dos iates da Rainha Vitória, que transportaram a sua bagagem e os seus criados através do Golfo da Biscaia e Atlântico abaixo até à ilha. Foi uma cortesia extraordinária — uma soberana a emprestar os seus navios para aliviar a convalescença da esposa de outro.
A quinta sobre o mar
No Funchal, a Imperatriz instalou-se na Quinta Vigia, uma velha quinta erguida no alto das falésias sobre o porto, onde o sol se mantinha ameno e o ar era suave. Ali passou o inverno, sensivelmente do fim de novembro de 1860 até à primavera, nos jardins e na luz branda que já tinham atraído à ilha os doentes e os titulados de meia Europa. A mesma casa abrigara outra enferma de sangue real apenas alguns anos antes — a jovem Princesa Maria Amélia do Brasil, que viera para a mesma cura e ali morrera em 1853 — de modo que a Quinta Vigia se tornou, por uma geração, um refúgio tanto para os de sangue real como para os adoentados.
E a ilha fez o seu trabalho silencioso. Ao longo do inverno os seus pulmões melhoraram de forma notável; a tosse cedeu, as forças voltaram, e pela primavera estava bem o bastante para partir. Fez-se de novo ao mar e regressou a Viena em maio de 1861 — ao que parecia, curada pelo Atlântico que lhe fora prescrito.
O que a ilha não pôde reter
A cura não sobreviveu ao regresso a casa. Poucos dias depois de voltar a Viena — à cerimónia rígida, à vigilância, às pressões da corte imperial — os sintomas regressaram. O padrão era tão claro quanto cruel: a ilha tinha-a confortado, e a cidade desfez tudo. O mal de Sissi nunca foi apenas uma questão de pulmões, e nenhum inverno atlântico podia responder ao resto.
A sua vida posterior foi feita de viagens inquietas e de profunda mágoa íntima, longe da Madeira. Acabou, no fim, pela violência e não pela doença: a 10 de setembro de 1898, num passeio à beira do lago em Genebra, a Imperatriz foi assassinada por um anarquista. Tinha sessenta anos. A mulher que a ilha um dia devolvera ao mundo, respirando com facilidade, foi-lhe arrebatada num único e súbito instante, longe do mar que a curara.
A Madeira não esqueceu o inverno que ela aqui passou. Hoje, o visitante que segue o roteiro real pelo Funchal ainda pode refazer os seus passos, e ler a sua cura como mais um capítulo na longa história de por que uma ilha se tornou remédio para as cabeças coroadas da Europa.
Fontes & notas
Compilado a partir de registos públicos sobre o inverno de 1860–61 da Imperatriz na ilha, da história da Quinta Vigia e de relatos biográficos publicados sobre a sua fuga à Madeira. Onde o registo sobrevivente menciona diferentes embarcações para a viagem, este relato segue-o apenas até onde vai o apoio dos iates da Rainha Vitória; as datas e os pormenores seguem o registo publicado.