MR Madeira Regency Madeira Real e Imperial · um registo independente

A ilha como receita · décadas de 1840 – 1920

Porque uma ilha se tornou cura

O tema por detrás de cada relato deste registo — o ar, o mar e um século de esperança

Foram enviados para o sul para respirar.
Alguns respiraram, recuperaram e partiram. Outros não.

Antes de existirem antibióticos, existia o clima. No século XIX, a resposta habitual que um médico podia dar a um doente com tísica — tuberculose pulmonar — ou com uma queixa respiratória ou “nervosa” persistente, não era um medicamento mas um lugar: uma longa convalescença algures quente, seco e bem arejado, longe do frio e da fuligem de um inverno do norte. Quem podia fazê-lo arrumava os baús e partia em busca de melhor ar. E um dos destinos mais em voga que escolhiam era uma pequena ilha portuguesa no Atlântico.

A Madeira situa-se a cerca de mil quilómetros da costa africana e portuguesa — subtropical, amena, sem geadas, banhada por ar marítimo limpo. O seu clima era notavelmente estável: sem invernos rigorosos, sem extremos, aquele tipo de calor constante que a medicina vitoriana valorizava acima de quase qualquer tónico. Tomou o seu lugar entre as grandes “curas” da época, nomeada no mesmo fôlego que Nice, o ar alto e claro de Davos e o calor seco do Egito.

O comércio de doentes

E assim vieram — abastados “doentes” da Grã-Bretanha, da Alemanha, da Áustria e de mais longe, navegando para o sul à medida que o outono do norte se fechava. Alguns ficavam um único inverno; outros instalavam-se por um ano ou dois, na esperança de que o tempo e o ar fizessem o que nada em casa conseguira. Não se hospedavam em hotéis, pois a princípio praticamente não os havia. Alugavam as grandes quintas agrícolas da ilha — as quintas — e viviam entre as vinhas e as árvores de sombra nas encostas acima do Funchal.

Desse tráfego nasceu um meio de vida. Um empreendedor escocês chamado William Reid fez fortuna alugando quintas a estes visitantes, muito antes de os seus filhos transformarem o nome da família numa instituição. Essa história — as villas, os vapores e o famoso hotel à beira da falésia que abriu em 1891 — pertence ao seu próprio capítulo; pode segui-la na página sobre os grandes hotéis do Funchal.

Um clima não se pode engarrafar, e por isso a ilha tornou-se o remédio — e toda uma economia cresceu em torno da esperança de respirar com mais facilidade. O registo

O sanatório do Atlântico

Com o tempo, a ilha ganhou um nome que captava tanto a sua promessa como a sua melancolia: uma espécie de “sanatório do Atlântico”. Era um lugar a que as pessoas viajavam para se restabelecerem — e, pela mesma lógica, um lugar onde os gravemente doentes se reuniam. O ar que curava o tísico em fase inicial nada podia fazer pelo caso avançado a não ser tornar mais suaves os seus últimos meses.

Os relatos reais e imperiais reunidos neste registo são todos, no fundo, esta mesma história contada no mais alto grau. A Imperatriz Isabel da Áustria — Sissi — é o exemplo clássico da temida tísica que melhorou na ilha e depois recaiu assim que regressou à Viena mais fria em 1861: prova, para os seus contemporâneos, do que o clima podia e não podia conter. Para outros, a cura chegou tarde demais. A Princesa Maria Amélia do Brasil morreu aqui de tuberculose em 1853, e o Imperador Carlos I, o último dos Habsburgos, morreu aqui em 1922. Foram enviados ao mesmo ar, e a ilha reteve-os.

Os vestígios que deixaram

Os visitantes mudaram a ilha tanto quanto a ilha os marcou a eles. Uma comunidade mercantil britânica enraizou-se no Funchal, chegando a contar cerca de quinhentas pessoas no seu auge oitocentista — comerciantes, médicos, famílias e uma longa sucessão de convalescentes de inverno. Construíram aquilo de que uma comunidade de exilados precisa: uma igreja anglicana e um Cemitério Britânico, ambos ainda hoje sobreviventes no Funchal. São o discreto registo físico dos estrangeiros que vieram pelo ar — e que, em muitos casos, nunca regressaram a casa.

Percorrer a cidade e os seus montes hoje é ler essa história na pedra. Se preferir segui-la no terreno, o roteiro real reúne os lugares onde estes relatos foram vividos e terminaram.

Fontes & notas

Compilado a partir de registos públicos da história da Madeira como estância de saúde oitocentista e das comunidades estrangeiras que aqui passavam o inverno. Quando esta página descreve uma propriedade ainda em funcionamento, ela é nomeada apenas como referência do mundo real; esta é uma história independente e não o sítio oficial de nenhum hotel.